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"Sometimes meaningless gestures are all we have"

domingo, setembro 03, 2006
Miami Vice (Idem)



Michael Mann sempre foi um cineasta visual e aqui mais ainda. Transportou o universo de Miami Vice para a nova era da tecnologia, seja na frente ou atrás das câmeras. Informação e conhecimento são fundamentais no cinema de Mann e agora, com todo um novo universo de vigilância eletrônica, Sonny, Tubbs e todos os outros tinham que adentrar esse mundo.

Um dos pontos fundamentais do filme segue esse caminho, mas de outra forma, quem olha o quê. E quem deixa de olhar. Quem começa é o informante (o ótimo John Hawkes) quando apenas no desvio do olhar que passa por Tubbs sabemos todo seu estado de espírito (brilhante recurso de Mann). Ele é o que consegue olhar para fora desse universo e dar o passo seguinte, mas o resultado é a morte. Sonny não demorará muito para apresentar a mesma angústia quando olha para fora da janela quando toda a equipe se reúne com outro informante, Nicholas. Ele também quer sair daquele mundo?



Curioso notar que Tubbs, logo no início, apresenta o elo mais humano do trabalho, sem querer sair dele, quando vê o que está acontecendo com uma das garotas que trabalham para o suspeito vigiado.

Quando Isabella (Gong Li) também olha para fora de seu mundo, saindo do protocolo e encarando Sonny, estabelece-se uma ligação muito forte entre os dois. Eles querem mais, eles querem algo além disso, mas ao mesmo tempo são extremamente profissionais (até onde isso entrará em conflito).



Se Sonny e Isabella vão para Cuba para se libertarem o mesmo faz Mann desde o início tirando toda a ação de Miami para o estrangeiro, se desamarrando tanto da origem (a série) quanto do país (e nisso vemos mais fortemente como Vincent de Colateral está aprisionado – na cidade, no metrô – ou Neil no aeroporto em Fogo Contra Fogo em oposição ao Ali na África, sendo todos conectados, bem ou mal, à suas profissões).

Dentre todos os personagens então que saem dois destaques que se ligam muito ao próprio Mann. José Yero e Martin Castillo. São eles, mais do que ninguém, que vêem tudo, pois são eles que usam óculos (fora os de sol que muitos têm). Yero quer ver tudo, quis ver Sonny e Tubbs ao vivo, cara a cara, para vê-los, controla todo o clube pelos monitores, é o que olha lá no fundo ao que acontece, é o que vê a ligação mais forte entre Sonny e Isabella (e enfatiza para o chefe Arcángel que ele precisa ver o vídeo), é o que comanda de longe, por uma câmera, o esconderijo dos russos que estão com Trudy, enfim, é quem detém a informação e o conhecimento. Pena que morra, mas morre como uma pintura de Pollock. Castillo também, de certa forma, comanda tudo do outro lado, seja no olhar de cima, via helicóptero localizando Trudy ou no final, procurando os atiradores. Sem ele o que seriam dos “mocinhos”? E voltamos à Mann, de óculos...







Isabella diz para Arcánjo que Sonny é sério, mas precisa ser “watched”, não que se precisa tomar cuidado ou ser zeloso ou desconfiado, mas “watched”. E Arcánjo não olha para ela mesmo quando sabe da transa, só ao final. O mesmo Arcánjo que quis ver Sonny e Tubbs no carro, mesmo que tenha sido a primeira e única vez que isso aconteceria. E Isabella que só estabelece realmente um contato mais íntimo ao mostrar uma foto de sua mãe para Sonny (sim, porque vemos que o sexo pode ser casual em sua vida), algo que ele não queria em princípio (num outro lance brilhante nessa cena temos um plano das rodas do carro estacionado fora do bar, não sendo o ponto de vista de nenhum dos dois, mas do espaço entre eles quando Sonny prevê que a relação não vai dar em lugar algum). É ela que também diz claramente que Sonny deve olhar ao seu redor e saber que tudo pertence à Arcánjo.

Aliás, se houver uma revisão criteriosa dos olhares no filme entre personagens e como a câmera os capta é algo riquíssimo e complexo. Mann simplesmente não bota a câmera quase entrando nos olhos de Tubbs quando liberta Trudy, perdendo toda a ação geral, à toa. Trudy que, vejam só, está vendada. E o leve deslocar dos olhos de Gina para sua boca, para o que fala.

Nisso do olhar o uso da digital é exemplar, no que diferencia da película em tomadas noturnas, “vendo” muito mais e no uso mais leve que em muitas tomadas podem ser confundidas com câmeras ocultas e câmeras de documentários, nos tirando do nosso lugar, nos deixando mais próximos ao que é filmado (ao contrário do que muitas vezes, infelizmente, a película/cinema/indústria proporciona).

E é quando Isabella descobre a verdade sobre Sonny que Mann chega em seu melhor momento, ela vê o distintivo e nada mais importa, aquilo é o cinema em estado puro e apenas lágrimas podem homenagear aquele momento. Momento decisivo melhor dizer. É dali que veremos o que Mann tem a dizer sobre tudo visto antes. Isabella poderia simplesmente morrer ali naquele momento de suspensão, onde ela não sabe mais onde está e quem é quem. A boa notícia é que são boas novas, sim, há saída, há a chance do olhar para fora, mesmo que para isso haja dor e despedidas. E tudo fica à se perder no horizonte, longe da vista.

“Well, if you told me you were drowning
I would not lend a hand
I’ve seen your face before my friend
But I don’t know if you know who I am
Well, I was there and I saw what you did
I saw it with my own two eyes”

P.S. 1: o espírito do seriado se mantém na abertura sem créditos, direto numa missão (geralmente sem ligação com a trama principal) e o final sem verdadeiras resoluções e conclusões, onde se antevê uma continuação (Arcánjo não é pêgo) que seria a intenção de Mann que gostaria de trabalhar mais a cidade de Miami, como ele trabalha muito bem Los Angeles. Apenas um ponto não foi mantido e se sente falta: a sobreposição das falas, característica marcante da série, dando um ar real quase inédito na tv.

P.S. 2: teria muito mais coisas para se dizer sobre o filme, mas por enquanto fica nisso mesmo.


posted by RENATO DOHO 7:07 AM
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